terça-feira, 6 de março de 2012

1 - BOBI


                                         

                                                                                              por Maria José Azevedo

O Bobi estava sentado na soleira da porta da sua casota pintada de branco com telhado vermelho e que estava colocada junto à soleira da porta da casa do senhor Bobine que gostava muito de casas e casotas pintadas de branco com telhados vermelhos.

O Bobi tinha uma existência pacata porque o senhor Bobine passava os dias metidos na sua oficina a fazer que fazia; a mulher do senhor Bobine passava os dias na cozinha a fazer doces e salgadinhos e os filhos do casal Bobine passavam os dias na escola e depois da escola o Bob ia para a natação, ou para o futebol e a Bobili passava horas e horas no ballet, chegando ainda depois do irmão. Por isso é que o Bobi prestava muita atenção ao que se passava na rua, excepto nos momentos em que a senhora Bobine saía da sua cozinha e lhe vinha trazer o almoço. O Bobi gostava muito desses momentos porque a senhora Bobine tinha uma voz muito doce, nunca falava alto nem lhe dava ordens. Ela trazia na mão direita uma gamela muito limpa e cheia de comida apetitosa, arroz ou massa com grandes pedaços de carne e na mão esquerda trazia uma outra gamela vazia para substituir a gamela da água que lá estava desde o dia anterior. A senhora Bobine colocava as gamelas no chão, fazia-lhe  sempre umas festinhas no lombo, abria a torneira, pegava na mangueira e enchia a gamela de água fresca. Nos dias de sol e calor a senhora Bobine chegava a sentar-se na soleira da porta a vê-lo comer e dizia sempre a mesma coisa, ai este Bobi tem um apetite fantástico, come sempre tudo. E mais uma vez passava a mão no lombo do Bobi, que abanava o rabo de contente e lá ia ela com as gamelas vazias na mão em direcção à sua cozinha de onde provinham cheiros maravilhosos. E cinco minutos depois da senhora Bobine ter entrado em casa, o senhor Bobine saía de casa cheio de pressa, boné na cabeça, com a trela na mão e o Bobi percebia que era o momento de ir dar uma voltinha ao quarteirão. Quer dizer, nem sempre era uma voltinha ao quarteirão, por vezes a voltinha ia pela avenida abaixo até à quinta rotunda, aquela que tinha no meio umas pedras redondas em cima de um montão de terra. O Bobi achava que o senhor Bobine já não era rapaz, porque já não corria tanto como o Bob, mas nos dias em que caminhavam pela avenida abaixo até à quinta rotunda, o senhor Bobine caminhava com o passo mais firme, as costas direitas e a passar sempre a mão pelo cabelo e pelo bigode. O Bobi também conhecia muito bem a rapariga gorducha e decotada que fazia limpeza três casas abaixo da casa do casal Bobine. O Bobi era um animal muito esperto e sabia que neste local o dono lhe retirava a trela e ele, de contente, alçava a perna na árvore em frente ao portão. Ele também sabia que a rapariga gorducha o esperava ao portão com um grande biscoito na mão e muitos risinhos parvos que ele sabia serem para o senhor Bobine que ficava todo nervoso e a passar a mão no cabelo e na careca e no bigode e, entre as árvores,  no rabo da rapariga gorducha. E como o Bobi não era um cão indiscreto, desatava a correr pelo passeio fora e só parava no terreno baldio ao lado da segunda saída da quinta rotunda.

Para o Bobi, esse era o grande momento do dia. Sabia que durante algum tempo iria poder correr em todas as direcções, cheirar as silvas, rebolar na erva, correr atrás dos pássaros e das pombas, desenterrar os ossos, cheirar os troncos, ladrar ao vento e tudo o que lhe apetecesse. O Bobi sabia que durante algum tempo o seu dono não o iria chamar, nem atrelar, nem mandar fazer nada. Era um cão feliz, completamente feliz, até ao momento em que o senhor Bobine saía do meio dos arbustos a arranjar a fralda da camisa e a apertar o cinto das calças. A menina gorducha do traseiro gorducho alisava o cabelo, sacudia a saia, fazia-lhe uma festa e partia apressada em direcção à paragem do autocarro, na terceira saída da quinta rotunda.

Depois, o senhor Bobine colocava a trela ao cão e ficavam por ali mais um pouco, até o autocarro chegar, até o autocarro partir, até o autocarro se perder lá longe. Então, o senhor Bobine retomava o caminho de regresso a casa, os passos cada vez mais lentos, as costas cada vez mais curvadas, a voz cada vez mais seca. O senhor Bobine ia para a sua oficina fazer que fazia e o Bobi enroscava-se no fundo da casota, feliz. Passaram-se  assim dias e dias, noites e noites, dias de calor e dias de frio. O Bobi era um cão cheio de dias felizes.

Mas um dia,  sem aviso, a senhora Bobine não veio mudar as gamelas do Bobi. E o Bobi não comeu. No  dia seguinte, e nos outros dias seguintes, a senhora Bobine também não apareceu. E naquele dia e no dia seguinte e nos outros dias seguintes, os meninos também não voltaram da escola. E naquele dia e no dia seguinte e nos outros dias seguintes  o senhor Bobine também não apareceu para lhe por a trela e levá-lo a passear. E o Bobi ficou  sentado à porta da sua casota branca com telhado vermelho, nesse dia, no dia seguinte e nos outros dias seguintes na mais completa solidão e abandono.

Um dia, veio a carrinha do canil e levou-o.








2 comentários:

  1. Há animais com uma sorte danada. O Bobi que é uma beleza tinha que cair numa casa em que o dono gosta mas é de arbustos.
    Para mim é um conto triste porque o destino que o Bobi vai ter não vai ser dos melhores. Não sei? Para que canil o Bobi foi?
    O conto não vai ficar assim!

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  2. Bobi, Bobi, vou mudar a tua vida.
    Recebi o recado da rapariga gorducha que deu pela falta do Senhor Bobine e trazer-te para o meu quintal. Vais fazer companhia à Mousse que anda muito empenhada a dar cabo do jardim.
    Quando vires a Maria José não lhe mordas as canelas!!!
    M.

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