Por Célio
Passos
Era o final de uma
tarde de verão. O sol mergulhava no oceano para os lados do Cabedelo quando o
coronel Leonardo Leão na reserva, entra na ponte da Arrábida, ao volante do seu
novíssimo Audi Q7 TDI, em direção a Espinho onde mora.
Ultrapassou uns
tantos veículos, e encostou de um modo brusco à direita, para ver como
avançavam as obras na marina da Afurada, ele que era um amante da vela e para
que o seu neto, um “leãozinho” de quatro anos, pudesse ver o rio e os barcos
que por lá mareavam.
O abrandamento
de velocidade foi tal que o automóvel que o seguia, um Mercedes 190D, verde
azeitona, já dos anos 80 do século passado, pertença do Senhor João Rato,
empresário da indústria mobiliária, embateu, com certo estrondo, nas traseiras
do seu veículo.
Leonardo Leão
travou o veículo e saiu com uma calma aparente. Analisou os possíveis estragos
nos dois veículos e olhou para o interior do Mercedes. O condutor mal se via.
Atrás de um enorme volante, uma cabeça despida de vestígios capilares, uns
óculos de alta graduação, preenchiam uma cara minúscula, que como todo o resto
da sua figura, era branca como a cal. Parecia um pequeno roedor perante a
presença de um felino caseiro. A custo saiu do carro, e gaguejando perante a
envergadura do Sr.Leão, homem de mais de um metro e noventa e espadaúdo,
timidamente disse:
- São coisas que acontecem...
A culpa é minha...São coisas que acontecem ! – ia dizendo numas palavras
chiadas, que mal se ouviam.
- Claro! O senhor tinha que
vir a uma distância de modo que pudesse parar o carro. O senhor devia ter
direito a carta de condução, devia-lhe ser retirada, é um inconsciente – disse
o coronel Leão, com um ar militar e com um tom de voz semelhante a um rugido.
O senhor Rato
ainda ficou mais pequeno que o seu metro e cinquenta perante a figura do senhor
Leão. Esta diferença de estatura atemorizou-o.
Entretanto, a
paragem brusca do Mercedes fez com que um porche carrera, pertença de um
empresário cultural, senhor Hernâni Falcão, embatesse nas traseiras do
Mercedes. Este, impassível, permaneceu dentro do carro.
O trânsito
começou a acumular-se e inevitavelmente as buzinadelas começaram a ouvir-se. A
polícia num ápice, que até parecia que estava à espera daquele acontecimento,
apareceu e colocou-se à frente dos veículos acidentados com as luzes azuis a piscar.
Entretanto
quanto um dos policiais, o agente Rui Canário, com um passo periclitante e
saltitante dirigiu-se aos acidentados; pediu os documentos aos intervenientes
do acidente, mandou-os bufar ao balão, e quis saber como aconteceu o embate.
Começou a escrevinhar um auto, enquanto autoritariamente, trinava algumas
perguntas. O outro, o agente Afonso Leitão, com uma voz rouca, foi a modos que
cuincando dando algumas ordens austeras para os automobilistas menos lestos.
- Senhor polícia não sei se a
culpa foi toda minha... este senhor abrandou ou travou de um modo
injustificável... que não tive hipótese de parar o carro - disse o senhor Rato,
timidamente, num som que parecia um chio de um roedor apanhado numa ratoeira.
- Não tente agora tirar “ o cavalinho
da chuva”, o senhor bateu por trás, por isso tem toda a culpa – disse o senhor
Leão, num bramido que mais parecia o rei da savana.
Entretanto, o
senhor Falcão dispôs-se a sair da sua viatura. Agitou os braços como umas asas
de uma ave de rapina, acordada de um sono tardio e preparada para caçar.
Aproximou-se do agente mas nem abriu o “bico” nem se propôs a modos que a
crocitar qualquer palavra.
O agente
Canário impassível ia tirando, com uma letra muito pequenina, os seus
apontamentos, verificava os estragos nos veículos, tirava medidas, enquanto os
condutores que estavam na fila, naquela curiosidade mórbida, abrandavam para
ver o que tinha acontecido.
- É só chapa! - diziam alguns automobilistas,
desconsolados.
- Ó amigo, já ando nisto há muitos anos. Quem bate
por trás tem sempre a culpa !– insistiu o coronel Leão.
Entretanto, o senhor Falcão, interveio:
- Só acontece a inconscientes como você! Aqui o
senhor Rato, é uma pessoa de bem, honesto, trabalhador e cuidadoso, que eu
conheço-o muito bem de Paços de Ferreira. Se ele bateu no seu carro, foi porque
o senhor fez uma manobra perigosa, sem tomar as devidas precauções – disse,
olhando fixamente o Sr. Leão por detrás de uns óculos escuros.
- É preciso ter descaramento!. Ó amigo, já ando
nisto há muitos anos. Quem bate por trás tem sempre a culpa!. O senhor é que
anda com os sonos trocados e não sabe o que diz – o senhor Leão, agitava a
cabeça, cujo cabelo abundante se assemelhava a uma juba.
Apesar de
desconfiar da bondade do senhor Falcão, o senhor Rato sentiu-se já mais
confortável com o apoio do empresário, até parecia que tinha crescido uns
centímetros.
O agente
Canário a modos que cuicou umas ordens para o senhor Falcão, já que a sua
viatura ainda se movimentava, mandou-o estacionar à frente do carro patrulha.
Claro, a
situação complicou-se, cada um apresentava as suas razões e foram todos parar à
esquadra para resolver o problema.
Moral da
história: Atrás de mim virá, quem de mim bem dirá.
Nota: Qualquer
semelhança com personagens da vida real é pura coincidência.
FIM

Caro Célio Passos,
ResponderEliminarA pulguinha atrás da minha orelha ficou mesmo intrigada é com o anónimo ilustrador deste blog.
Na imagem acima, só falta o som. (o chiar do rato, o cuicar do canário, etc...)
De resto, está lá tudo, por isso, eu acho que o nome do autor deveria estar mencionado, não apenas para receber os merecidos créditos, mas também para ficar para a posteridade...
E quem não soubesse o género do autor, não teria dúvidas em afirmar que esta espécie de fábula foi escrita por um homem... ah ah ah
Está-se mesmo a ler....
Abraço.
O leão atravessou a ponte da Arrábida para apanhar o rato que já estava quase nas garras do falcão e chocaram todos numa grande
ResponderEliminarconfusão. Patas partidas, asas quebradas, um acidente sem precedentes...
Veio a polícia mas o agente leitão não se aproximou com o medo do leão e o agente canário nem saiu da gaiola não fosse o esfomeado falcão deitar-lhe a mão (ou melhor o bicão)!
M.