por Helena João
KIKA INÊS
Era uma vez, há muitos, muitos anos, no tempo em
que os animais falavam, um Médico Veterinário. Ricardo Sardinha, sempre
sonhara, desde pequenino, ser Médico Veterinário. Aliava um gosto enorme pelos
bichos, a um gosto ainda maior pelo que ele designava de Medicina à detective.
Havia algo de especial em descobrir coisas sozinho, sem grandes conversas com
os pacientes. Isto porque, naquele tempo, os animais falavam sim, mas apenas
entre eles. Não há que dar confianças a esses seres inferiores, os humanos.
Ricardo Sardinha estudara anos a fio e no seu subconsciente de inocente
sonhador, imaginava-se a viver uma vida de glamour e reconhecimento.
Afinal, ele iria ser o melhor veterinário de todos os tempos e nenhuma vida se
lhe escaparia entre os dedos.
-
Está? É o Dr. Sardinha?
-
Sim, bom dia. Em que posso ajudá-la?
-
Daqui é a dona da Kika.
Ricardo Sardinha suspira, ao telefone, enquanto
tenta rapidamente lembrar-se de todas as novecentas e trinta Kikas das quais é
veterinário.
-
Peço desculpa, mas tem que ser um bocadinho mais específica… Gata ou cadela?
-
Gata. A Kika Inês.
Ricardo Sardinha sente-se bafejado pela sorte.
Benditos os donos e os segundos nomes dos bichos. Kika Inês só conhece uma.
- Ah, sim, Srª D. Coelho, já estou a ver. Diga-me
então, o que se passa.
- Olhe Dr., a Kika não come há uma semana e hoje está
muito parada. Veja lá que fui dar com ela deitada na liteira, de lado. O que é
que acha que possa ser?
Ricardo Sardinha suspira mais uma vez. A boa da
consulta por telefone. Mas será assim tão complicado perceber, que um médico
tem de ver os bichos para diagnosticar?
-
Não sei Srª. D. Coelho, vai ter de ma trazer para ser vista.
-
Eu até já lhe dei um “benurão”, que achei que a pobrezinha estava com febre,
mas ela não melhorou nadinha. Agora até está com uma respiração esquisita!
-
Traga-ma já Srª. D. Coelho, porque se não ela vai morrer!
Enquanto prepara tudo para por a gata a soro,
Ricardo Sardinha refaz mentalmente o discurso. O paracetamol é tóxico para os
gatos, mata-os, não se pode dar. Mas, oh doutor, se até as grávidas e os bebés
podem tomar. Pois, mas um gato não é uma grávida nem um bebé. O fígado deles
não metaboliza a droga, blá, blá, blá. Mas, oh doutor, ela vai ficar bem,
perguntam, invariavelmente, os donos a chorar, num misto de tristeza e culpa.
Neste momento não lhe sei dizer, preciso de lhe dar o antídoto e de lhe fazer
uma transfusão.
Quando a Srª. D. Coelho lhe entra esbaforida pela
clínica adentro com uma Kika Inês, azul e a respirar de boca aberta ao colo,
Ricardo Sardinha encolhe os ombros e pergunta: Há quanto tempo lhe deram o
Ben-U-Ron? Há doze horas, doutor. E agora?
- Agora? Agora Inês é morta.
Moral da história: Quem não sabe, não mexe, que é
para não estragar.
Nota do autor: Esta história é ficção. Nenhum
animal foi morto ou ferido durante a sua escrita. Qualquer semelhança com a
realidade é pura coincidência.
Cara Helena João,
ResponderEliminarBem verdade o que antigamente se dizia: «Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão?»
Gostei daquele final poético (- Agora? Agora Inês é morta!)a evocar outras Inês e outras mortes....
E mais um bicho a não escapar deste cadafalso literário ....
Abraço.
Cadafalso literário. Gostei da frase. Está a haver muitas mortes. Tem que se reverter o panorama literário. A partir de agora só nascimentos de gente conhecida, de preferência.
ResponderEliminarCom este conto aprendi uma coisa importante: Os animais não podem tomar "benuron". Já risquei esse medicamento da minha lista. Safa!
Célio Passos
Será que o próximo gato vai comer o veterinário Sardinha?
ResponderEliminarA história da Kika Inês já nos deu uma boa dica e de borla...
M.