terça-feira, 6 de março de 2012

2 - O VETERINÁRIO

                                                       
por Helena João
KIKA  INÊS

Era uma vez, há muitos, muitos anos, no tempo em que os animais falavam, um Médico Veterinário. Ricardo Sardinha, sempre sonhara, desde pequenino, ser Médico Veterinário. Aliava um gosto enorme pelos bichos, a um gosto ainda maior pelo que ele designava de Medicina à detective. Havia algo de especial em descobrir coisas sozinho, sem grandes conversas com os pacientes. Isto porque, naquele tempo, os animais falavam sim, mas apenas entre eles. Não há que dar confianças a esses seres inferiores, os humanos. Ricardo Sardinha estudara anos a fio e no seu subconsciente de inocente sonhador, imaginava-se a viver uma vida de glamour e reconhecimento. Afinal, ele iria ser o melhor veterinário de todos os tempos e nenhuma vida se lhe escaparia entre os dedos.
            - Está? É o Dr. Sardinha?

            - Sim, bom dia. Em que posso ajudá-la?

            - Daqui é a dona da Kika.

Ricardo Sardinha suspira, ao telefone, enquanto tenta rapidamente lembrar-se de todas as novecentas e trinta Kikas das quais é veterinário.

            - Peço desculpa, mas tem que ser um bocadinho mais específica… Gata ou cadela?

            - Gata. A Kika Inês.

Ricardo Sardinha sente-se bafejado pela sorte. Benditos os donos e os segundos nomes dos bichos. Kika Inês só conhece uma.

-       Ah, sim, Srª D. Coelho, já estou a ver. Diga-me então, o que se passa.

-       Olhe Dr., a Kika não come há uma semana e hoje está muito parada. Veja lá que fui dar com ela deitada na liteira, de lado. O que é que acha que possa ser?

Ricardo Sardinha suspira mais uma vez. A boa da consulta por telefone. Mas será assim tão complicado perceber, que um médico tem de ver os bichos para diagnosticar?

            - Não sei Srª. D. Coelho, vai ter de ma trazer para ser vista.

            - Eu até já lhe dei um “benurão”, que achei que a pobrezinha estava com febre, mas ela não melhorou nadinha. Agora até está com uma respiração esquisita!

            - Traga-ma já Srª. D. Coelho, porque se não ela vai morrer!

Enquanto prepara tudo para por a gata a soro, Ricardo Sardinha refaz mentalmente o discurso. O paracetamol é tóxico para os gatos, mata-os, não se pode dar. Mas, oh doutor, se até as grávidas e os bebés podem tomar. Pois, mas um gato não é uma grávida nem um bebé. O fígado deles não metaboliza a droga, blá, blá, blá. Mas, oh doutor, ela vai ficar bem, perguntam, invariavelmente, os donos a chorar, num misto de tristeza e culpa. Neste momento não lhe sei dizer, preciso de lhe dar o antídoto e de lhe fazer uma transfusão.

Quando a Srª. D. Coelho lhe entra esbaforida pela clínica adentro com uma Kika Inês, azul e a respirar de boca aberta ao colo, Ricardo Sardinha encolhe os ombros e pergunta: Há quanto tempo lhe deram o Ben-U-Ron? Há doze horas, doutor. E agora?

- Agora? Agora Inês é morta.

Moral da história: Quem não sabe, não mexe, que é para não estragar.



Nota do autor: Esta história é ficção. Nenhum animal foi morto ou ferido durante a sua escrita. Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

3 comentários:

  1. Cara Helena João,


    Bem verdade o que antigamente se dizia: «Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão?»

    Gostei daquele final poético (- Agora? Agora Inês é morta!)a evocar outras Inês e outras mortes....

    E mais um bicho a não escapar deste cadafalso literário ....


    Abraço.

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  2. Cadafalso literário. Gostei da frase. Está a haver muitas mortes. Tem que se reverter o panorama literário. A partir de agora só nascimentos de gente conhecida, de preferência.
    Com este conto aprendi uma coisa importante: Os animais não podem tomar "benuron". Já risquei esse medicamento da minha lista. Safa!
    Célio Passos

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  3. Será que o próximo gato vai comer o veterinário Sardinha?

    A história da Kika Inês já nos deu uma boa dica e de borla...

    M.

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